” – você vai na Virada?
- Ah, eu não consigo, acho que é corroborar com essa prefeitura e esse governo que são toscos, que largaram a cidade. É comprar o discurso deles de que tudo está bem quando na verdade não está. Fora que eles exploram ao máximo quem trabalha, ouvi dizer inclusive que segurança e limpeza tem que trabalhar um turno de 24hs direto…. “
e foi com essa conversa com uma amiga na última 5afeira que comecei a pensar em não virar esse ano.
Gosto de festa na rua mas esse ano estava especialmente preguiçosa. Acabou que a virada começou na varanda de casa.
A amiga foi visionária e acertou sobre a prefeitura apresentar uma situação que não sustenta. Fazer festa sem organizá-la direito dá pau seja no salão do prédio ou no centro da cidade. O problema não é xixi na rua ou gente bêbada, porque festa de rua aqui, em Paris ou em qualquer lugar acontece a mesma coisa. O problema é não dar estrutura para quem trabalha ou quem curte o evento.
Acordei no domingo e mesmo com a estória da galinha depenada - e eu que só queria saber da sopa de cebola do Jacquin, fiquei sem notícias – juntei-me a uma turma para tentar nas barraquinhas de chefs no Minhocão e quem sabe assistir alguma coisa. A parte gastronômica foi, em todos os horários, a melhor idéia mal realizada do evento.

Primeiro porque o acesso ao local dificulta o abastecimento das barracas. Depois porque o espaço é pequeno o que promove a concentração, os esbarrões, as filas e o tamanho reduzido das barracas. E terceiro, depois do Mercado, ficou claro que além de comida de rua ser um amor do paulistano, eventos com boa comida e preços camaradas atraem muito público.
Tenho que isso reflete também a falta de paciência e verba pra custear almoço de muitos reais todo dia, ninguém mais aguenta pagar caro sempre que quer comer. Mas voltemos a festa…
Lotação, filas e sushi no sol fizeram a gente fugir e cair pro Sujinho da Rio Branco. O caminho era composto por bons ecos de shows que aconteciam no horário. A deprê pela cidade largada e pela Rua dos Gusmões e Guaianeses e seus mortos vivos continua, mas acho interessante sempre essa convivência.


Depois de uma farta refeição no Sujinho da Rio Branco, que agora aceita cartões (!!!), seguimos em direção a Julio Prestes. Na 6afeira já sabia que nem Toots & Maytals nem Abyssinians se apresentariam e que chamaram o Rockers Control + Dubversão para tocar no lugar.


Foi delícia. No caminho o sol esquentava e prometia um belo fim de tarde. Chegar na Julio Prestes e sentir o clima “in a dubwise style” fizeram-me pensar na sorte da prefeitura em governar essa cidade. O sorriso das pessoas, crianças correndo, gente dançando, pastel e caldo de cana, a pelada acontecendo na área que se formou da ex-cracolândia demolida faziam acreditar numa cidade possível.
Brother Culture, MC inglês e parte da família RC , teve sua passagem emitida na 5afeira, voou sábado depois de se apresentar em Londres na 6afeira, chegou domingo de manhã, foi pra rua se juntar ao Dubversão e a tarde on stage de novo pro Rockers. Saúde e disposição musical a gente vê por aqui.

Ficamos ali até Gil encerrar a festa. Show delicioso com seus clássicos (Realce, Palco, Andar com Fé), ele de crooner de Bob Marley (No Woman no Cry e Is This Love) e forrós de Jackson do Pandeiro e outros para dançar juntinho. Ele showman que aos 70 rebola e comanda todos no palco. Do bolso ele saca “Nos Barracos da Cidade” (Dia Dorim Noite Neon, 1985) em meio a todas as reviravoltas da virada, e “Punk da Periferia”(Extra, 1983) em que as letras escorriam pelos ouvidos contaminados pelo rolê zumbis da cracolândia.

Saída de metrô a direita para voltar para casa e a lembrança das palavras de Sérgio Vaz, que esteve na virada com sua Cooperifa. “São Paulo é uma mulher feia, e como toda feia trepa bem pra caralho”. As vezes acho que essa prefeitura se aproveita disso.
