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Elisa Nazarian é escritora, tradutora e preparadora de texto. É mãe do também escritor, Santiago Nazarian.

é autora de Bilhete Seco, livro que saiu pelo Ateliê Editorial, livro que acabei de ler e que traz o cotidiano em contos que falam de solitude e solidão, de presenças e ausências, de perdas e memórias.

“Bilhete Seco” traz uma tristeza bonita.

agora quero falar de  Elisa. De reencontrar Elisa. Ela foi a melhor amiga da minha mãe. E nesses quase 25 anos de ausência da D.Cecilia, Elisa sempre foi uma figura que evocava na memória o colo que sempre me faltou.

Reencontrá-la na sua casa, espaço de muitos dos escritos de Bilhete Seco, foi incrível. Experimentar uma intimidade imediata que não se perdeu com o passar do tempo, mesmo que ele não tenha passado conosco juntas.

E ainda sair com mais uns dois livros na bolsa…

“Tratar com brutalidade uma garota como essa poderia despertar nele o vigor da juventude. De certa forma, Eguchi já estava um pouco entediado com a casa das “belas adormecidas”. Apesar disso, suas visitas de tornavam mais freqüentes. Tratar a garota com violência, quebrar o tabu da casa, destruir o miserável elixir dos velhotes e, dessa forma, afastar-se em definitivo desse lugar; labaredas de sangue quente impeliam Eguchi. No entanto, não havia necessidade de violência ou força. Era certo que o corpo adormecido da garota não ofereceria resistência. Certamente, seria fácil estrangulá-la e matá-la. Mas a tensão desapareceu de súbito, e Eguchi sentiu apenas um vazio sem fim ampliar-se no seu âmago. Não muito distante, ouvia-se o estrondo das grandes ondas do mar, pois não havia vento em terra. O velho imaginou a profundidade do mar sem luz em noite escura. Apoiou-se no cotovelo e aproximou o rosto da face da garota. Ela respirava pesadamente. Desistiu de beijar sua boca e deixou-se cair.”

 

 

Publicado originalmente em 1961 “A Casa das Belas Adormecidas” , de Yasunari Kawabata, traz um universo de poesia e desilusão. Nascido em 1899, Kawabata ganhou prêmio Nobel em 1968 e suicidou-se em 1972. Esse foi o primeiro livro dele que tive contato, e na primeira tentativa de leitura, empacou. Cru e suave, é preciso estar preparado para o mundo que Kawabata conta.

O romance gira em torno de uma casa onde homens velhos vão para deitar-se ao lado de mulheres adormecidas que não acordam jamais. Eguchi, nosso guia, experimenta o prazer, a clareza, a senilidade e a dificuldade impostos pelo tempo.

Sua escrita impõe verdades as vezes difíceis de se acompanhar. Eguchi envelhece mas coloca o peso do tempo nos outros.  A japonice de Kawabata é marcante e atraente: as questões de honra, o limite da sociedade hiper controlada, os desejos humanos que não acompanham o desenvolvimento de seu corpo, tudo lá de uma maneira pertinente. E a estória vai além dessa vã filosofia minha de 4 linhas.

 

Para quem está aberto a se deparar com beleza e tristeza, é um bom livro.


“Este ano vai ser pior…
Pior para quem estiver no nosso caminho.”

Então que venham os dias.
Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para.
Um brilho nos olhos que é para rastrear os inimigos (mesmo com medo, enfrente-os!).
É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras.
Não aceite nada de graça, nada. Até o beijo só é bom quando conquistado.
Escreva poemas, mas se te insultarem, recite palavrões.
Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do teu próprio destino.
Outra coisa, pior que a arrogância é a falsa humildade.
As pessoas boazinhas também são perigosas, sugam energia e não dão nada em troca.
Fique esperto, amar o próximo não é abandonar a si mesmo.
Para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade.
Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.
Se não ama a tua causa, não alimente o ódio.
Por favor, gentileza gera gentileza. Obrigado!
Os Erros são teus, assuma-os. Os Acertos Também são teus, divida-os.
Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando, é perdoar e pedir perdão, sempre.
Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidões.
Qual a tua verdade ? Qual a tua mentira? Teu travesseiro vai te dizer. Prepare-se!
Se quiser realmente saber se está bonito ou bonita, pergunte aos teus inimigos, nesta hora eles serão honestos.
Quando estiver fazendo planos, não esqueça de avisar aos teus pés, são eles que caminham.
Se vai pular sete ondinhas, recomendo que mergulhe de cabeça.
Muito amor, mas raiva é fundamental.
Quando não tiver palavras belas, improvise. Diga a verdade.
As Manhãs de sol são lindas, mas é preciso trabalhar também nos dias de chuva.
Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.
Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira.
O Ano novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele. Acredite em você.
Feliz todo dia!

*do livro “Literatura, pão e poesia”  Global Editora

Já tinha ouvido falar de “O Amante”,  o filme, quando encontrei o livro, envolto numa cinta PB com uma foto do chinês e da menina.


da autora Marguerite Duras, confesso conhecia pouco. Agora quero ler tudo. Sua escrita é tão contundente que parece  atravessar a retina do leitor e escorrer por dentro do cérebro, impregnando o corpo. Fazia tempo que um livro não me dava torpor e calafrios.

Muito de suas obras tem referências autobiográficas, assim a infância vivida na Indochina francesa é pano de fundo para essa e outras estórias.

“O Amante” traz uma adolescente de quinze anos e meio crescendo em Saigon, com chapéu e sapato de salto alto de lamê dourado, que torna-se amante de um chinês de Cholen.

Suas reflexões são o ponto alto do livro, a maneira como ela descreve sensações, pensamentos e reações das pessoas do vilarejo, de sua família e do próprio amante.

A narrativa é fragmentada, sem cronologia, misturando de fatos e pensamentos. Escrito em 1984, é um livro pequeno, de 83 páginas, que faz com que o leitor comece a economizar as páginas para a experiência durar mais.

Tão boa e envolvente é a história de Sumire, uma jovem japonesa que ama literatura e quer ser romancista, que tentar descrever a maneira que se desenrola a trama que envolve-a juntamente com o professor, amigo próximo e narrador K, e a empresária Miu, objeto de paixão da personagem, seria uma injustiça.

O livro fala de sonhos e solidão de uma maneira singular e imprevisível. Originalmente de 2001, foi publicado pela Alfaguara.

“A Terra, afinal, não range e geme ao traçar seu caminho em volta do Sol, de modo que os seres humanos possam se divertir e rir.”

“Cada um de nós tem um quê especial que só podemos usufruir em um momento especial da nossa vida. Como uma pequena chama. Alguns poucos afortunados cuidam dessa chama, alimentam-na, segurando-a como uma tocha para iluminar seu caminho. Mas, uma vez apagada, nunca mais se acende.”

“Como as criaturas dão ordens à gente e nos fazem decorar lições!” pensou Alice “é como se eu estivesse na escola neste momento”. Contundo levantu-se e começou a recitar, mas tinha a cabeça tão cheia da Quadrilha da Lagosta que mal sabia o que estava dizendo, e as palavras saíram realmente muito esquisitas:

Esta é a voz da Lagosta; eu a ouvi declarar:
“Você me torrou no forno e me deixou sapecar.”
Graciosa, elegante, com a fuça e de través, Dá laços, se abotoa e separa as pontas dos pés   “”

(Aventuras de Alice no País das Maravilhas

Jonathan Safran Foer escreveu “Extremamente Alto, Incrivelmente Perto” e levou meu coração. Daqueles livros que você termina e compra 4 exemplares para distribuir para os amigos. Sou fã da maneira como ele escreve, diagrama, pensa e apresenta suas histórias.

Quando ganhei “Comer Animais”, primeiro livro não-ficção dele, fiquei com receio do que poderia vir. Seria um libelo pró-vegetarianismo como a única maneira de salvar o mundo? Seria chato se um dos meus autores contemporâneos favoritos caisse por terra com um livro assim. Não foi o caso. No meio do livro o medo era terminá-lo e  virar vegana radical, filiada ao PETA.

Não virei vegana mas “Comer Animais” é uma daquelas peças que traz informações cotidianas impossíveis de ser ignoradas. Transforma a maneira como se vê a vida, e principalmente como você vê a comida. Faz você lembrar que o Peru é um bicho e não uma bandeja na padaria, que o Frango tem bico e penas e não vem destrinchado congelado, o porco…melhor nem entrar no porco ainda.

“Comer Animais” é uma grande pesquisa sobre a criação industrial de animais nos EUA: o surgimento, a maneira como operam hoje, como tratam os animais e como estão encaixadas na falsa engrenagem da comida barata para se manterem em funcionamento em condições tão perversas. O livro foge do discurso fácil de “pobres animais, horrendos humanos” mas as descrições sobre as condições de vida e morte de muitos bichos faz com que o leitor, por mais de uma vez, deixe o livro de lado um pouco. Alguns dados são alarmantes, como a porcentagem de perus estéreis nos EUA, que chega a 99%. Outros surpreendem mas são lógicos: trabalhadores das linhas de produção de abate de animais são naturalmente mais agressivos e “insensíveis” devido ao alto tempo exposto ao cheiro de sangue e a mecanização do processo.

“Comer Animais” propõe filosofar sobre um tema prosaico, natural (somos onívoros, certo?) e cotidiano de uma maneira única. E isso muda tudo. Não dá para se alimentar da mesma maneira antes e depois de lê-lo. Ou, como diz a avó do autor: ” Se nada importa, não há nada a salvar.”

Nick Hornby chegou primeiro em imagens e depois em prosa.

Assisti Alta Fidelidade para depois chegar no autor por trás da história e finalmente todas as outras histórias que ele contou. Além de AF também ganharam versões cinematográficas “Um Grande Garoto” e “Amor em Jogo”.

Alta Fidelidade nunca li, mas gostei bastante de “Uma Longa Queda“, livro de 2005 com uma temática bem particular: a história começa na noite do ano novo com o encontro dos personagens no alto da Torre de Londres rumo ao suicídio. O livro é incrível e repleto de sarcasmo, cinismo e solidão, presentes em nas obras do autor.

 

“Juliet, Nua e Crua” veio de presente. Não sabia do livro que saiu em 2009. Delicioso, bem elaborado, cheio de ligações e citações de cultura pop que temperam os textos de Hornby. Suas histórias conseguem ser ao mesmo tempo duras e divertidas ( cheguei a rir alto, ótimo sinal ). Um reencontro para lá de bem vindo com o escritor.

Annie, Duncan, Tucker Crowe são personagens de uma trama que envolve abandono da vida e os encontros e desencontros traçados nesse interim: um casal, um cantor obscuro, uma cidade a beira mar, um grupo de malucos que se encontra via internet.

Mais que contar a história, deixo aqui pequenos trechos para seduzir possíveis novos leitores:

“(…)Então a internet aparecera e mudara tudo. Ao descobrir, um pouco depois de todo mundo, como aquilo funcionava, Duncan montara um website chamado “Alguém Consegue me Ouvir?”, o título de uma gravação obscura feita depois do terrível fracasso do primeiro disco de Crowe. Até então, o fã mais próximo morava em Manchester (…) com a internet os fãs mais próximos viviam no Laptop de Duncan.(…)”

“Uma epifania, então. Era isso que aquilo parecia ser. Só que as epifanias era um pouco como as resoluções de Ano-Novo (…): acabam simplesmente ignoradas, (…). Provavelmente já tivera três ou quatro epifanias durante toda a sua vida, e ou estava bêbada ou ocupada todas as vezes. “

“Desculpe. Eu não sei o que dizer. Eu sei que…que o amor deve ser transformador – (…) – E é dessa forma que tenho tentado olhar para ele. Pronto. Bang! Eu me transformei, e, como isso aconteceu não importa. Você pode ir embora ou ficar, e isso terá acontecido. De modo que eu tenho tentado pensar em você como uma metáfora ou algo assim mas a coisa não funciona. O fato terrivelmente inconveniente é que, sem você junto a mim, tudo volta ao estado que era antes. Não pode ser de outra forma. E, preciso dizer, os livros não têm ajudado em nada a esse respeito. Porque, sempre que lemos alguma coisa sobre o amor, sempre que alguém tenta definí-lo, há sempre um estado ou substantivo abstrato, e eu tento pensar nele dessa maneira. Mas, na realidade, o amor é…bem, é simplesmente você. E quando você vai, o amor acaba. Não há nada abstrato a respeito dele. “

 

Marjane Satrapi ganhou o mundo com Persépolis. Seus quadrinhos contavam a Revolução Iraniana pela ótica da menina que acompanhou as mudanças de seu país simultaneamente às suas. Entrou na adolescência, foi mandada à Europa para não sofrer as consequências do regime fechado e  tentava encontrar o equilibrio entre ocidente e oriente em si própria. O livro virou filme:

Marjane publicou outros quadrinhos, como “Frango Com Ameixas”, também editados no Brasil.

Novamente ela surpreende e faz rir, usando da simplicidade nos traços e histórias, permitindo a entrada num universo distante, fechado e mítico do Irã: a conversa feminina. “Bordados” é a narrativa das conversas que aconteciam pós-almoço na casa da família Satrapi.

No Irã, após o almoço os homens vão fazer a siesta e as mulheres lavar a louça e tomar o Samovar, um chá feito a partir do cozimento de um pedaço de ópio queimado em água. Era isso que embalava as histórias e confidências.

Bordados, além de ser o equivalente iraniano ao “tricô” brasileiro que as garotas fazem tão bem quando se encontram, tem um significado próprio na cultura que só lendo o livro para descobrir. O livro que captura a atenção de quem o abre. Comigo foi assim, olhei, comprei (sou fã de Satrapi) e comecei a ler ali mesmo, encostada na coluna da livraria. Terminei no mesmo dia, em casa, agradecida por ter participado daquela conversa tão familiar, tão feminina e ainda assim tão distante.

@nilda

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